quarta-feira, 11 de maio de 2016

Ducentésimo

No próximo sábado minha vida completa dez meses sem a Raquel. Foram, e ainda estão sendo, dias e noites difíceis, onde nem mesmo o calor fora de época serviu pra aquecer meu coração, fragilizado e machucado.

Tenho sido obrigada, a contragosto, a lidar com pensamentos sombrios e uma depressão que se acomodou em cada cantinho das minhas entranhas. E enfrento tudo isso porque eu ainda estou aqui e sinto, um tanto amargurada, que a vida ainda vai me dar muitos e muitos anos de lida.

Perdê-la significou me perder também, e venho lutando, dia após dia, para me adaptar a essa nova vida, a essa nova Alice. E isso é muito difícil porque sei que eu sou a minha única salvação e também a minha maior condenação.

Rendida, não tenho muitas opções a não ser encarar tudo o que me é apresentado. 

Ou é isso ou eu definho.

E parte da minha estratégia pra sobreviver está nas palavras.

É verdade que nem tudo o que penso eu traduzo pro papel, mas é fato que transcrever parte das minhas reflexões tem um efeito considerável. Importante. Talvez até mais eficiente que alguns anos de terapia, vai saber...

Escrevo desabafos, inspirações, pensamentos encruados na minha rotina, trechos de música que me tocam, me deixam saudosista, mas também fortalecida.

Às vezes escrevo e choro; em outras escrevo e sorrio, mesmo que tristemente.

Porque por mais foda que seja passar por tudo o que passo, eu sei que sou uma pessoa de sorte. Tive o merecimento de ter um relacionamento incrível com uma pessoa sensacional. E mesmo tendo sido tão breve, me convenço de que não tê-la encontrado teria sido pior, porque eu carregaria comigo um vazio sem nem entender o que estaria faltando.

E assim, de post em post, chego à postagem de número 200.

Eu sempre soube que esse seria um processo longo, complicado e doloroso. Mas quando analiso tudo o que escrevi até aqui (incluindo tudo o que não postei) percebo que já evoluí um tanto assim (e falo isso ciente de que daqui alguns minutos posso desatar em lágrimas).

Acredito que, no meu caso, qualquer evolução é uma evolução. E isso me basta.

Ainda tenho muito pra analisar e viver. Muito pra pensar e escrever. E me comprometo a me vigiar cada vez mais, não no intuito de relevar, mas sim de assimilar que hoje nada é o que teria sido se o caminhão do câncer não tivesse nos atropelado.

Tenho que absorver essa amputação definitiva na minha vida. Tenho que transformar a minha perda em algum combustível que ainda não sei os efeitos, mas que sei que existem.


Que a Sorte e o Sol permaneçam na minha vida. E que venham os próximos duzentos posts!



2 comentários:

  1. Keep walking, Alice! Nunca deixe de escrever. E que venham mais 200, 400 posts. Saudades de vc, saudades da Raquel. Um beijo e fique em paz :)

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  2. Imagino o buraco, vazio que vc ficou Alice, esses post estão sendo uma forma incrível de expressar algo que está preso aí dentro e precisa sair daí continue sim, pq vai ser ótimo pr vc e incrível pr nós que estamos tendo a oportunidade de ver a forma carinhosa quando fala da nossa saudosa Raquel sinto muito a falta dela mesmo não sendo muito presente no dia a dia... Saudades do jeito único dela de ser, de me chamar de Kelão pq ela já sabia a resposta que eu ia dar... Saudades de vc Alice saudades da Raquel ��

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