quarta-feira, 27 de julho de 2016

Faxina

Eram sábados azuis, às vezes cinzas, chovia. Tocava sempre músicas dos anos 80, algumas do Metallica, algumas da Legião. Fazíamos a playlist antes de qualquer outra coisa, e sempre depois do café (uma única caneca, degustada na cama, entre cigarros).

Eu sempre falava que sábado era dia dela fazer o café. Ela se fazia de ofendida e questionava por que eu dizia isso também aos domingos. Mas fazia - o café dela era ótimo.

O planejamento pra faxina começava lá por terça, quarta-feira. E fazíamos questão de não limparmos nada até o fim de semana, já reservado pra isso.

A passagem da Raquel pela sala sempre foi devastadora. Ela sempre trazia nos bolsos papéis aleatórios, embalagens de chiclete, comprovantes de recarga do bilhete único, e deixava tudo amontoado na mesinha.

No sofá sempre tinha mil roupas. Usadas, experimentadas, pijamas. Ela chegava em casa e ia jogando tudo lá.  

O tênis sempre ficava no cantinho, do lado do meu, também deixado fora do lugar.

Ela tinha uma pasta, preta, que guardava os desenhos, e trabalhos da faculdade, e atividades da escola, e a pasta passava a semana no chão, encostada no sofá. Não era o lugar, mas era o lugar. Sempre foi.

O chinelo ela nunca achava e sempre usava o meu! Quando eu perguntava onde tava o dela, a resposta era sempre a mesma: “não tenho”!

Ela tinha dois pares.

E aparentemente mil fones de ouvido, porque sempre tinha um, aqui e ali.

“Aqui e ali” também eram os lugares encontrados pra queimar incenso. Qualquer buraquinho (na parede, na porta, na janela) tinha sempre um palito – e no chão uma cinzinha quase invisível (porque o vento já tinha espalhado).

O banheiro tinha uma confusão que era só dela. De vez em quando eu encontrava um bilhetinho na pia, no espelho depois que embaçava, ou dentro do box. Sempre me faziam rir.

Ela tinha descoberto desenhos “escondidos” no azulejo (um ratão com braços cruzados e cabelo punk no chão, perto do vaso, e uma florzinha sorrindo na parede, perto do chuveiro). Aquilo também sempre me fazia rir!

No chão do corredor sempre tinha um cinzeiro perigosamente cheio. À noite tínhamos nossa batalha diária pra definir quem levaria o cinzeiro pra fora do quarto. Eu sempre falava que ela era fresca, e ela sempre ganhava no par ou ímpar.

Eu sempre era par e sempre colocava dois. E aí ela ria de mim e dizia “amanhã eu levo”.

Nós tínhamos um lado do guarda-roupa que era “a parte da bagunça”. Tinha tudo lá! E faxina que era faxina incluía arrumar também esse buraco negro.

As cortinas da sala ficavam enroladas, e assim permaneciam até o fim dos trabalhos. Era meio que um sinal, uma bandeira do que tava rolando por ali.

Ela sempre ficava com o banheiro. Eu gostava de varrer e passar pano no chão. A cozinha era sempre um drama, e o último estágio – muitas vezes concluído, quando muito, no domingo.

E aí tinha o barulho do aspirador de pó, competindo com a música e com a poeira que ficava presa entre os tacos. E tinha um sonzinho (“fic-fic-fic”) que simbolizava a vã tentativa de tirar as marcas de dedos da porta da varanda. E tinha a Raquel cantando, o que quer e onde quer que fosse.

Inventávamos mil motivos pra fazer pausas e intervalos variados. Dividíamos um copo de coca enquanto fumávamos. Geralmente nessas horas eu pulava algumas músicas que sempre eram listadas e quase nunca tocadas. Ela só fingia que ficava chateada.

Às vezes uma chamava a outra só pra ver como a casa tava bonita, por estar limpa. E aí contemplávamos tudo arrumado, com os pés pra cima e uma sensação de dever cumprido. E nem nos atrevíamos a fazer janta, pra não ter que sujar o que tava limpo.

À noite, por volta das 19h, ela dizia “olha o lixeiro!”, quando o caminhão passava. Ele passava todos os dias e ela sempre falava isso.

Aí a gente acordava no dia seguinte num apê limpinho, com o cara do sorvete passando na rua. E já de noite havia bagunça.


Lá pra terça ou quarta-feira combinávamos de fazer uma faxina no fim de semana. E não arrumávamos nada até lá.



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