terça-feira, 6 de setembro de 2016

Antes da lágrima

Me foi concedido um encontro, previamente compreendido que seria breve: duraria até que a primeira lágrima caísse.

Fechei os olhos e aceitei.

Sorri quando a vi caminhando na minha direção.

"Senti saudade", eu disse, dentro de um abraço perdido no tempo, ciente de que qualquer palavra além do tom poderia colocar tudo a perder.

"Senti saudade também", ela me disse. "Vamos sentar ali"!, e indicou um tronco sob uma árvore.

Eu ri da roupa dela: um short xadrez que ela chamava de uniforme, e dizia que um dia ele iria no Dom (como ela chamava a mercearia da esquina) sem ela.

Ela sorriu de volta, com os olhos bem redondos, e as duas pintinhas embaixo da íris se destacando - como sempre.

"Acho que tô indo bem", eu disse, segurando sua mão.

"Você tá arrasando", ela me respondeu, sorrindo mais uma vez.

"Só não pode se desesperar!", emendou.

Eu quis justificar, comecei falando "ah, mas é foda, as decisões que eu tomei depois que você morreu..."

Mas ela me interrompeu e me disse que até mesmo as minhas decisões, por mais que me pesem agora, foram necessárias.

"Você só precisa ficar calma. Eu tô aqui com você, mesmo que você não saiba lidar".

"Eu sei que está, mesmo que eu não assuma", respondi.

Sorrimos.

"Foi muito divertido estarmos juntas, né?", eu soltei, sentindo a lágrima brotar.

Ouvi ela dizendo "foi sim, muito divertido"!




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