terça-feira, 25 de outubro de 2016

25 de outubro de 2015

Domingo, duas da tarde.

O sol está tímido lá fora, se escondendo atrás de nuvens gordas e cinzentas. Algumas crianças brincam na rua, criando uma algazarra que compete com o som dos carros na avenida ali perto.

Estou deitada na cama, olhando para o teto. Já faz algum tempo.

De longe, parece que durmo. De perto, quase é possível ouvir o agito dos meus pensamentos, em contraponto com as batidas enfurecidas do meu coração.

Pisco esporadicamente, mas não para limpar a vista; a verdade é que esse é o único movimento, além da respiração, que ainda faço voluntariamente. Todo o restante já deixei de lado.

E pisco apenas para dar vazão às lágrimas que brotam já nem sei mais de onde.

A porta da varanda tá aberta, e ouço o som que o vento causa nas plantas logo ali. Fora isso, e a molecada na rua, os ruídos se resumem às passagens insistentes dos ponteiros do relógio, à bomba de ar que mantém vivos os peixinhos no aquário, e ao motor da geladeira na cozinha.

Todo o resto é silêncio.

E quando o silêncio finalmente se instaura dentro de mim, levanto.

O movimento chama a atenção da Nani, que até então dormia meio que de vigília embaixo da cama. Já faz dias que ela está atenta aos meus sinais, como que pressentindo que a aparente calmaria antecede alguma merda.

Sinto o chão debaixo dos meus pés,  e a irregularidade dos tacos de madeira sob meus dedos assim que me levanto. Desvio de uma pilha de roupas no chão, próximo da cama, e dos pares de tênis que já nem sei mais há quanto tempo estão ali.

Tem um cinzeiro sujo no corredor, e o tapete está enrolado perto do banheiro. O osso do cão, com uma aparência disforme, tá por ali também, completando a cena.

Caminho até o ateliê e vejo as coisas da Raquel que continuam ali, como que esperando o seu retorno.

As telas, os lápis, os desenhos, as tintas... Tudo ainda está ali, do jeitinho que ela deixou.

Mas falta ela.

Ali e em todos os outros cômodos.

E os dias só reforçam essa ausência.

Eu tive a opção de largar tudo! Poderia ter saído de casa, largado o emprego, fugido de São Paulo.

Mas permaneci onde estava, por orgulho e vaidade, mesmo sem ter ciência de quais eram os riscos dessa decisão.

O pânico me invade e eu chamo por ela.

Uma vez.

Duas.

Chamo três vezes.

A Nani dá um latido, talvez porque não entendeu o meu chamado, talvez porque queira reforçar o meu coro.

Chamo novamente, desta vez com a voz falhada pelo choro que sufoca: "Raquel"!

Os silêncios permanecem; as ausências se mantêm.

Quase posso ouvir o pulsar das minhas veias latejando na cabeça.

Quase posso sentir que o poder está nas minhas mãos - e sempre esteve.

Quase posso...!

Vou para a cozinha correndo. Sem comer há dias, fico zonza pelo esforço. Com a vista escura, nem vejo quais remédios estou pegando.

Mas pego vários. Engulo vários. Molho o chão bebendo a água pra fazer os comprimidos descerem.

E é ali que caio, minutos depois.

Sinto na têmpora a frieza do azulejo.

Mantenho os olhos abertos porque paguei caro pelo show, e quero ver seu desfecho.

E ele termina triste, solitário e silencioso.

Fui encontrada cinco dias depois.



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