quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

348

Esse deveria ser o post mais importante do blog.

Talvez mais importante que o primeiro, que teve só um parágrafo, mas que abriu as portas do blog. Talvez mais importante que aquele em que eu explico como tudo aconteceu; ou aquele em que conto a evolução das coisas sob a perspectiva da Nani; ou ainda aquele que até agora foi o único a receber uma versão em áudio.

Esse é o post de número 348.

3-4-8, o número da Raquel.

Ela via esse número em todos os lugares. Temos sempre, pelo menos, quatro chances por dia de olhar no relógio e ver esses números. E ela impressionantemente sempre os via. Batia os olhos nas horas e, pá, lá estavam o 3, o 4 e o 8. E ela ressaltava, mesmo que no meio de uma conversa, ou diante de um silêncio. Dizia “348” e voltava a fazer o que quer que estivesse fazendo.

E aí eu passei a ver esse número em todos os lugares: na rodovia que ligava nossa casa à casa do meu pai; no número de telefone do folheto da pizzaria; no preço da etiqueta da brusinha em promoção.

Se eu não via, ela via e me mostrava.

E eu não imaginava que a fixação com esse número se estenderia no seu pós-morte.

Se estendeu!

No começo eu chorava sempre que via. Tava fragilizada e parecia que ver essa sequência me abalava mais do que deveria (o que não é verdade! Abalava porque abalava, porque era foda, porque ela morreu e isso é triste pra caralho).

Aí decidi que não poderia viver o resto da vida chorando sempre que “coincidentemente” olhasse pro relógio, ou pro outdoor, ou pra o que quer que fosse e visse 348.

Comecei a “emanar amor”.

Aqui, um parêntese:

Quando a Raquel ficou doente pela segunda vez, e eu vi que não conseguiria curá-la com o meu otimismo, com a minha fé ou com a minha esperança, senti que apenas uma coisa lhe daria um mínimo de conforto: meu mais puro e sincero amor.

Teve vezes que ela sentia dores, e os remédios não funcionavam, e eu não podia fazer nada muito além de uma massagem, ou uma compressa, ou cantar uma música bonita. Então passei a emanar amor.

Todas as vezes que fiz isso, muitas vezes no auge de um desespero, senti um calor sair do meu peito. Calor de amor.

Eu perguntava se ela sentia aquilo e ela dizia que sim.

Talvez fosse efeito da morfina.

Talvez (e essa é a versão que eu compro) ela sentia mesmo.

Fecha parêntese.

Superada a fase do “choro-348” eu passei a emanar amor sempre que me deparava, sem querer, com esse número.

E isso foi tão, tão libertador que se eu soubesse teria começado antes.

Ainda é!

E, não sei, mas parece que eu realmente consigo estabelecer uma conexão com ela quando faço isso! E parece que agora essa sequência aparece pra mim em forma de portal. Meu portal com ela. Com três números aleatórios que nem envolvem o cinco, meu preferido, ou o sete, meu queridinho do momento.

Emano amor. Enquanto escrevo esse texto, enquanto atravesso os dias sem ela, e sempre que vejo 348. E fico grata por poder escrever sobre isso!





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