quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Do luto à luta

Poucas vezes na vida sinto que tive, realmente, o controle do que acontecia à minha volta.

É verdade que sempre fui eu que escolhi como lidar com as questões mais cabeludas e como agir diante das adversidades, mas os obstáculos não necessariamente foram definidos por mim.

Nesse sentido é estranho pensar que, tendo esse poder, um dia apontei pra mim e disse “hum, que tal se eu ficar viúva no auge da minha juventude, bem quando todos os meus amigos estão se casando e tendo filhos?”.

Parece meio duvidoso, né?

Mas há controvérsias!

E, por havê-las, acredito que eu escolhi passar por isso.

Foda, né?

Mas acredito mesmo, e vou além: acredito que só tendo tido essa experiência eu poderia conquistar a evolução necessária pra mim.

É que nem no videogame. Tem poderzinho e moeda que a gente só ganha se passar por aquela portinha específica.

E aí eu fico pensando que, tendo conscientemente escolhido isso, ou eu sou sádica ou eu realmente acredito que eu sou forte.

Bem forte.

Forte mesmo!

E eu prefiro acreditar nessa opção.

Prefiro acreditar que carrego em mim mais esperança que perversidade.

Mas isso eu tô falando hoje...!

Hoje, fevereiro de 2017 (!).

Porque até bem recentemente, tudo o que eu fazia era chorar e reclamar do “castigo” que eu tava recebendo.

Me debatia com os meus pensamentos, me chicoteava com as minhas lembranças, me lamentava por tudo o que foi, por tudo o que era, por tudo o que eventualmente seria.

Tinha certeza de que eu tinha sido alguém muito ruim pra passar por tudo aquilo e, no final, ela morrer.

Procurava razões, mesmo as mais insensatas, pra justificar isso.

Chorei muito, bebi muito, fumei muito, dormi muito.

Quase zerei a Netflix, vi filmes xis e séries muito aleatórias.

Mas não revi nada do que tinha acompanhado com a Raquel, muito menos os filmes que nós vimos juntas, porque assistir televisão com ela nunca se restringia somente à programação; fazíamos um milhão de pausas pra fumar, pra conversar, pra ver o céu, o sol, as plantas, ou a arruaça das crianças na rua em frente ao prédio. E minha memória é boa o suficiente pra eu associar as histórias às estórias.

E esse processo foi bastante doloroso porque ela morreu no meio da temporada de Orange is the new black. E eu sempre acreditei que ela não faria isso (afinal, quem morre no meio de uma temporada?!). E daí eu não conseguia terminar, e logo veio outra temporada, fresquinha.

Só quem acompanha séries entende do que eu tô falando.

E tudo foi um grande vazio: existencial, cotidiano...

Muito cinza.

Tudo realmente muito cinza.

E seria lindo se eu pudesse dizer algo como “e daí num belo dia eu acordei e me sentia bem”.

Porque não foi bem assim. Demorou muito, eu tive que acordar muitas vezes, em muitos sentidos, em vários campos.

E sinceramente eu não sei precisar o dia exato que eu me senti mais leve.

Mas foi recentemente.

Fazendo uma analogia, o processo foi quase como ir à praia. Eu fiquei um tempo me debatendo na areia, me esturricando no sol, mas a cada segundo eu ficava mais próxima do mar.

Tão sutil quanto a movimentação do nosso planeta. A gente não percebe, mas também não pode negar que ele tá o tempo todo se mexendo.

Quando eu finalmente molhei as patinhas (e desde criança tenho o hábito de molhá-las, meio que pedindo a “bença” do mar), o alívio foi tão grande que eu me perguntei por que demorei tanto pra chegar ali.

O que me levou da areia ao mar fui eu mesma. O reconhecimento do alívio partiu de mim. A vontade de me molhar, e me refrescar, e avançar, veio do meu âmago.

Claro que, assim como as inconstâncias, os presentes chegam até a gente também meio que sem o nosso poder de decisão; eles vêm e pronto. E eu recebi presentes muito valiosos nesse período – alguns, inclusive, por estar na bad eu nem soube reconhecer, e acabei perdendo. Mas outros me foram dados, e hoje eu sou muito grata por esse merecimento!

O que me serve não necessariamente te cabe, mas se eu pudesse apontar algo que me serviu, muito, eu escolheria uma palavra de cinco letras.

“Calma”.

Em ordem cronológica, nas vezes que o desespero me enforcou, e além da saudade eu senti uma dor quase física, porque era na minha alma, era dentro de mim, eu me ordenava ficar calma. Nas vezes que eu chamei por ela, e tive como resposta somente a nossa casa vazia e um silêncio que quase rasgava meus tímpanos, eu me ordenei ficar calma. Quando arrumei nossas coisas pra mudança, e separei o que seria doado, o que ia pro lixo, e resumi tudo e confinei todas as nossas coisas a algumas caixas e sacos pretos, e chorei até ficar sem ar, eu me mandei ficar calma. Quando me vi de volta na casa do meu pai, sem nenhuma referência dos últimos (e melhores!) anos da minha vida, e mal conseguia levantar porque a tristeza amarrava minha vontade de viver, eu me mandei ficar calma. E trabalhei a calma diante das dificuldades em conseguir um emprego, diante das dívidas que começaram a se acumular, diante da total falta de dinheiro.

“Calma, Alice, calma”.

Diariamente.

A vigília é constante. Porque se alguém pode me foder nessa vida, esse alguém sou eu mesma! Eu não sou piedosa comigo, eu me julgo muito, eu me puno mais ainda, eu sou cruel com os meus sentimentos, muitas vezes, e o que é pior: só eu sei onde dói. E se eu não me controlo, muito facilmente eu vou lá e enfio com tudo o dedo na ferida.

As tretas vão aparecer, quer eu queira ou não. Isso eu não posso decidir. Mas eu decido como vou lidar com elas e minha arma/armadura é a calma.

Só sendo bastante paciente eu vou conseguir me banhar naquele mar que falei há pouco!

E eu quero isso não só porque acredito que eu mereça me refrescar, depois de me debater tanto, mas principalmente porque sei que mergulhar é uma mudança de estado. E isso me soa quase como um sinônimo de evolução.

Eu tinha uma vida pacata, estável e feliz. Não tinha motivos pra sair do meu sofá tranquilamente instalado na minha colorida zona de conforto. Não tinha mesmo!

E agora que eu já consigo interpretar o terremoto, e analisar a posição de tudo depois da tempestade, eu vejo que... de outras maneiras talvez não fosse possível, sabe? A dor invalidou a minha plantação, mas também serviu de adubo pra eu plantar outras coisas. E eu não posso fingir que isso não é verdade!

E eu decidi, com bastante consciência e os pés descalços bem ancorados no chão, distribuir os frutos dessa nova plantação. E me doar.

Mas pra fazer isso eu antes preciso me curar, de verdade. Aceitar o que passou, o que está acontecendo e o que vem pela frente. Preciso me desculpar, me amar, de verdade, e me cuidar: cuidar da minha mente, do meu coração, do meu espírito e do meu corpo.

Preciso ficar menos tempo no facebook (e assim me aborrecer menos com os absurdos que estão acontecendo no nosso mundo, na política), e me cercar mais daquilo que me faz bem: mantras, yoga, meditação, meus amigos, minha família, minha namorada, a Nani.

E preciso escrever mais. Porque já me disseram que eu fico chorando por não ter dinheiro e nem percebo que tô sentada num barril de ouro.

Vou escrever mais!

Sempre muito consciente de que dias de sol são bons, os de chuva também, e que o céu tá o tempo todo me mandando mensagens. E uma das mais bonitas é o fato de que só com essa mistura a gente vê o arco-íris.

E eu não tô sozinha. E isso é muito Sorte e Sol!




2 comentários:

  1. fiquei sem palavras, Alice! que lindo tudo isso, deu pra sentir daqui sua vontade, coragem e força! continue, siga em frente, e calma, muita calma =) torço sempre por vc! um beijo e um abraço apertado!

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  2. Eu nunca tive dúvidas do quanto você é forte, amiga! Mesmo os dias sem Sol podem ser deliciosos quando encaramos e aceitamos a chuva. E é graças à ela que existe o mar, e que podemos mergulhar. Banhe as patinhas e mergulhe fundo com o corpo inteiro neste Universo que te espera. A mesma energia de Shiva que destrói é a que permite novos começos, já que é ela que transforma tudo. Om Namah Shivaya!

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