quarta-feira, 29 de março de 2017

400

Um dia fomos à praia.

Nossos encontros com o mar sempre aconteciam no litoral paulista, especificamente na Prainha Branca (Bertioga/Guarujá). Já não me lembro mais como ficamos sabendo de lá, mas depois que fomos pela primeira vez, nunca mais fomos em outro lugar. Aquele era o nosso lugar, a nossa praia. Nossa prainha de areia branca e água cristalina.

Acampamos lá algumas vezes, sempre cientes da sorte que tínhamos por ter descoberto aquela ilha. Escolhíamos sempre como refúgio o último camping da praia, que na época ainda não tinha nem chuveiro no banheiro (o banho era de água fria, numa nascente).

Fazíamos a trilha de pouco mais de uma hora, e chegando lá sempre entendíamos o porquê de valer a pena. Nas minhas lembranças, aquele lugar era sempre quase o paraíso. E estar com a Raquel lá tornava tudo ainda mais mágico (caso não tenha ficado claro ainda, ela era muito, muito divertida!).

Um dia a Gabi, minha filha, nos acompanhou. Ela tinha tido apenas um contato com o mar até então, e eu quis que ela conhecesse nosso pedacinho de céu.

Tudo programado, acordamos bem cedinho, fomos até o Jabaquara, pegamos a van, descemos a serra, pegamos a balsa, fizemos a trilha, chegamos lá, montamos a barraca, colocamos os biquínis e... céu nublado.

Quase uma decepção.

Entramos no mar e eu propus uma brincadeira: “vamos fazer o sol sair”.

Raquel, Gabi e eu começamos então nosso coro: “sorte e sol! Sorte e sol! Sorte e sol”!

Às vezes o sol saía, meio tímido, e nós aplaudíamos, ríamos e nos divertíamos. Nos convencemos de que nossa torcida fazia tudo dar certo.

De lá trouxemos o ritual para a vida. “Sorte e Sol” viraram nossas palavras de ordem, nosso mantra da sorte, nossa receita pra fazer o sol sair em todos os céus.

Raquel dizia que eu tinha trazido sol pra vida dela. Eu gostava de dizer que ela me trazia sorte. Não havia, portanto, nada mais significativo do que “Sorte e Sol”.

Quando ela fez a passagem eu fiquei muito sentida. Me senti muito sozinha e também muito azarada. Tudo o que via era o céu cinza, e sem ela comigo eu parecia não ter forças pra querer o sol brilhando em mim novamente.

Aí fiz o que sempre faço nos momentos de crise: escrevi. E criei esse blog, no sétimo dia.

Hoje, 400 posts depois, decidi mudar seu nome. O endereço continua o mesmo, e será sempre este, como uma cicatriz. Mas o nome muda porque Sorte não foi embora; ela está aqui.

Tive sorte de encontrá-la, tive sorte de receber seu amor, tive sorte de ser a escolhida pra cuidar dela nos seus últimos dias. E hoje vejo a minha sorte sempre que sinto meu coração aquecido pelas lembranças, sempre que sinto o amor emanar de mim quando penso nela, sempre que a sinto aqui comigo, mesmo que de uma maneira que eu ainda não compreenda de todo.

Sorte e Sol!




Um comentário:

  1. Se você não postasse mais nada, eu teria a convicção que esse post seria o meu preferido.
    Vejo evolução, percepção, vejo sorte e também o sol.

    "nosso mantra da sorte, nossa receita pra fazer o sol sair em todos os céus."

    Abraço.

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