quinta-feira, 16 de março de 2017

Do luto

Quem me vê aqui sentada, toda bonitinha na frente do computador, prestes a escrever a respeito do luto não pode mensurar o caminho que trilhei.

Foi uma trilha sinuosa e tortuosa, e que apesar de eu já ter me movimentado bastante ainda falta muito, muito pra andar.

Mas reconheço meu progresso. E sou grata por ele.

Hoje me ouvi, em voz alta, falar da minha perda. O que me chamou a atenção foi o tempo que isso aconteceu: um ano e oito meses.

“Quase dois anos”, minha mente me alarmou. “Quase dois anos e o choro ainda te engasga”.

Resolvi escrever antes que o alerta começasse a soar mais alto aqui dentro de mim. E parto especificamente deste ponto.

O que é o tempo?

Ou melhor: por que, diante de tanta coisa para se pensar, analisar, dissecar e tentar engolir, muitas vezes a seco, eu vou me preocupar com a soma dos minutos do relógio?

O luto não é uma receita de bolo. Não é um compromisso agendado, com horário marcado.

Ele dura o tempo que precisa durar.

Saber quanto tempo dura depende única e exclusivamente de cada um.

Isso parece óbvio, visto de fora.

Mas eu demorei quase todo esse tempo de luto, até agora, pra aprender isso. E enquanto não aprendia, e justamente por isso, me cobrava segundo as folhas do calendário. Impus pesos extras que não precisava.

O luto pode durar meses ou anos. E ainda não tenho como provar, mas sinto que pode durar uma vida inteira.

Porque é algo que, mesmo vazio, preenche.

Mas se apresenta em etapas, às vezes não muito claras. E evolui.

Isso não significa que, plim, você acorda um dia e aquilo não lateja mais.

Palpita, todo o tempo, mas se aprende a lidar com isso.

O que acontece é que a gente se anestesia da realidade.

Parece uma cura, mas é só uma enganação. Imposta por nós mesmos. Questão meramente de sobrevivência.

Porque viver, encarar a “vida que segue” principalmente no começo do luto é triste e doloroso. Mas o que se pode fazer?

A vida continua, mesmo, afinal de contas.

Então você vai parando de chorar e aos poucos vai reassumindo sua vida, seus compromissos. Por obrigação, muitas vezes a contragosto, mas faz.

Quanto tempo isso dura?

Como se pode saber?

Esses dias eu li que a gente só percebe que se recuperou de uma dor assim quando fala no assunto e não sente mais nada.

Eu ainda sinto muito! E acho que já andei mais de quilômetro.

Percebo isso quando leio o que escrevi logo no começo ou repenso os pensamentos que pensei na ocasião.

E por isso acho que lidar com o luto já é complexo o bastante e não precisa de cobranças extras só porque já faz “tanto tempo” que isso aconteceu.

O tempo, na verdade, tem que ser um pódio; uma ilustração de progresso.

E progresso tem que ser o seu objetivo quando a vida te enfia naquele quarto escuro (escuro no sentido de “treva”).

Vibrei tão baixo que acessei coisas que não precisava. Como se eu tivesse resolvido cavar o fundo do poço.

Consegui!

Eu me senti muito refém de tudo o que aconteceu, mas sei que fui muito mais prisioneira de mim mesma, dos meus pensamentos, que influenciavam meus sentimentos, enquanto estive trancada dentro da minha tristeza.

Muitas vezes somos mais gentis com o outro do que com nós mesmos.

Eu sou perita nisso.

Ou era!

Porque o meu progresso sempre esteve, e sempre estará, atrelado à minha evolução – mental e espiritual.

A Raquel morreu e eu morri um pouquinho com ela. Renasci, numa lancinante dor, mas com consciência. Consciência do momento presente e de que a vida é efêmera. E que às vezes ela te diz “não”.

Só assim hoje consigo ser grata por entender a brevidade dos dias.

E isso a própria Raquel me mostrou, a minha Raquel, de sorte e sol, quando simplesmente morreu.

Mas... uma vez que somos todos energia, conectados, o que é a morte?

E o que é a morte diante do tempo?

Saí timidamente do meu quarto escuro, da minha treva, e a cada passo sinto mais a luz. E essa luz desfaz toda ignorância que carrego, todos os nós em mim.

Isso é libertador!

Parece bastante contraditório me libertar justamente com o que me aprisionou, mas não consigo pensar em antídoto melhor.

Devo ser grata ao meu luto?


Talvez. Mas ainda não cheguei nesse estágio!

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