segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sessão da tarde

Sempre achei uma brisa o dilema de Peter Pan e sua sombra. Isso sempre despertou um milhão de pensamentos dentro de mim, desde pequena. Afinal, como era possível que ele perdesse parte de si?

Eu me perguntava o que a sombra fazia longe dele, e o que ele próprio fazia, perto da luz, estando sem ela. Me questionava até se seria passível de dor esse tipo de ausência – ou a sua reconstrução.

Sentia dó de Peter Pan sem a sua sombra, mas o alívio era pouco quando ele enfim voltava a tê-la. Porque era apenas uma sombra, afinal.

Uma brisa, como eu disse.

Em uma das minhas maiores crises existenciais, aos vinte e poucos anos, escrevi uma carta me questionando quem eu era, de verdade, em essência. E, por sorte, e com luz, eu recebi essa resposta: eu sou, aqui, o conjunto de todas as alices que me formam.

Eu sou o resultado de mim mesma.

Goste eu ou não.

Nessa descoberta eu costurei de volta partes de mim que vagavam soltas – tipo a sombra do Peter Pan. E desde então venho cuidando desse conjunto, dessa colcha de retalhos. Porque me aterroriza um pouco pensar em alicinhas soltas, sem mim.

No fundo eu sempre soube que esse merecimento não foi à toa; nada é de graça, sabemos disso.

Eu precisei me costurar pra saber a importância disso, pra ter condições de mensurar a verdadeira perda quando eventualmente arestas de mim ficam soltas. Hoje sei que foi uma espécie de preparação. Eu me preparei pra poder lidar comigo mesma no futuro.

Os últimos três anos foram de uma loucura inimaginável pra mim. Começou com o medo de perder a Raquel quando ela ficou doente, passou pelo medo da solidão depois que ela morreu, até chegar ao medo de ter de levar adiante uma vida sem ela.

O medo me anestesiou da dor, em partes, mas me sedou também de mim mesma.

E a Alice desse período meio que vagou, tipo a sombra do Peter Pan. Com vontade própria, é verdade, mas apenas uma sombra.

Eu a deixei longe de mim porque perto ela me fazia mal, me deixava triste.

Mas chega uma hora que a história fica tão repetitiva e maçante que é preciso virar a página (mesmo, e principalmente, quando se tem a impressão de que o resto da história perdeu o interesse).

Minha sombra é tão somente uma sombra, mas ela reflete o que eu sou. E eu não posso negar isso ou fechar os olhos para esse fato. Tampouco posso deixa-la por aí, sozinha. Porque o Capitão Gancho da vida real é muito perigoso e ardiloso, e se alimenta justamente das sombras.

Reconstruir a mim mesma usando a minha sombra, reacoplando a mim a alice mais triste e miserável que já existiu não é uma tarefa simples. Mas ela também sou eu, e só posso seguir adiante quando aceitar isso.

Já tive um milhão de recomeços. Mais da metade se deu depois que perdi minha lanterninha. Mas agora é diferente porque só agora consigo enxergar a continuação (da minha história e de mim mesma). E só agora aceito minha sombra de volta. 

O que significa que só agora consigo crescer. E sair da Terra do Nunca.

Eu posso voar!



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